Eu te disse!
Às vezes, a verdade bate asas antes de bater à porta. Entre desconfianças, certezas teimosas e bananas mordiscadas, a realidade sempre encontra um jeito — nem que seja deixando pistas pelo caminho. “Ih, eu te disse…” 🦇🍌
5/8/20242 min read


Tem gente que teima mesmo diante do óbvio. Não adianta explicar, mapear, lógica matemática. É um sujeito descrente. Cismado com a própria sombra, desconfiado da própria alma. Um duvidador nato. No caso, uma cabreira protocolada.
Numa manhã, bem manhãzinha, ela tocou a campainha. Eu ainda de pijamas.
— Quem é? — perguntei com voz dormida, arrastada.
— A vizinha. — percebi aflição na resposta.
— Um instante.
Caramba! Nem tomei café. Deve ser grave.
Me troquei, penteei os cabelos, escovei os dentes e me olhei para ver se estava convincentemente acordada. Abri a porta e a vi saracoteando de um lado para o outro.
Ih! A coisa é feia. Sorri para disfarçar. Ela disparou falatório sem “bom dia”.
— O prédio está infestado de ratos. Entraram na minha casa e deixaram até coco pela mesa. Comeram a banana da travessa.
Franzi a testa. Desconfiei.
— Tinham outros alimentos expostos?
Ela não esperava que mantivesse a serenidade, e pior, fizesse alguma pergunta.
— Biscoitos, mas estavam ensacados. — respondeu com olhar esbugalhado.
Sacos não são empecilho a roedores. Abri belo sorriso conclusivo.
— Ah! Não são ratos. São morcegos. Vimos alguns entrarem na nossa cozinha, pela janela, e mordiscarem as bananas na fruteira.
Ela enfezou. Se alterou.
— Não! Minha mesa estava toda cagada.
Inalterável, insisti.
— Calma. Fique de vigia à noite. Verá. Nós passamos a fechar totalmente a janela da cozinha e não tivemos mais “bananas comidas”. — expliquei pacientemente.
A vizinha enrubesceu. Achei que fosse ter um troço.
— Você está errada. Vi fezes de rato.
Cansei.
— Ah, tá. — a irritação me invadiu e o estômago reclamou o dejejum. Dei as costas e bati a porta.
Passou um bilhete por baixo da porta:
Amanhã virá um dedetizador. Colocará veneno. Aviso por causa dos seus cachorros. Os meus, levarei para a minha mãe.
Nada respondi. Só coloquei pano úmido nas duas portas de entrada.
Dois dias depois, novamente campainha ao amanhecer.
Abri a porta com “cara de poucos amigos”.
— O que foi?
Nem percebi que ela segurava um lenço e chorava compulsivamente.
— Tem vários morceguinhos mortos na minha sala.
— Eu te disse!!!!!
